O Controlo Motor Depende da Informação Sensorial
Um dos princípios centrais do sistema motor: sem input sensorial, não há forma de planear nem executar movimentos com precisão — do reflexo espinhal mais simples às tarefas mais complexas.
Publicado em 07 de dezembro de 2020 por Miguel Vieira

Um dos grandes princípios do sistema motor é que o controlo do movimento depende sempre de informação sensorial para poder ser planeado e executado com precisão. Este princípio aplica-se tanto aos níveis mais básicos da hierarquia motora, como os reflexos espinhais, como aos níveis mais elevados. A nossa capacidade de fazer movimentos precisos, bem sincronizados e com a força correta depende, de forma crítica, de um fluxo constante de informação sensorial presente em todos os níveis dessa hierarquia.
A facilidade com que executamos a maioria dos nossos movimentos esconde uma sofisticação e uma complexidade enormes. Os engenheiros passaram décadas a tentar fazer com que as máquinas realizassem tarefas simples que nós damos por garantidas, e ainda assim os sistemas robóticos mais avançados estão longe de reproduzir a precisão e a fluidez de movimento que conseguimos, em qualquer tipo de condição, de forma automática e sem esforço. Como consegue o cérebro fazer isto? Muitos dos detalhes continuam por compreender, mas dois grandes princípios parecem ser fundamentais para entender o controlo motor:
- Segregação Funcional. O sistema motor divide-se em várias áreas que controlam diferentes aspetos do movimento — uma verdadeira estratégia de “dividir para conquistar”. Estas áreas distribuem-se por todo o sistema nervoso, e uma das principais questões da investigação em controlo motor é justamente compreender o papel funcional de cada uma delas;
- Organização Hierárquica. As diferentes áreas do sistema motor organizam-se de forma hierárquica. As áreas de nível superior ocupam-se de tarefas mais globais relacionadas com a ação — decidir quando agir, planear uma sequência de ações adequada, coordenar a atividade de vários membros em simultâneo. Não precisam de programar a força ou a velocidade exatas de cada músculo, nem de ajustar o movimento face a alterações de postura; essas tarefas de baixo nível ficam a cargo dos níveis inferiores da hierarquia.

A hierarquia do sistema motor tem 4 níveis: a espinal medula, o tronco cerebral, o córtex motor e o córtex associativo. Existem ainda dois circuitos paralelos — os gânglios da base e o cerebelo — que interagem com toda esta hierarquia através de ligações com o tálamo.
A espinal medula é o primeiro nível da hierarquia motora. É onde se encontram os motoneurónios, e também onde existem inúmeros interneurónios e circuitos neuronais complexos responsáveis pelo processamento “mecânico” do controlo motor. Estes circuitos executam os comandos de baixo nível que geram a força adequada em cada músculo ou grupo muscular, permitindo movimentos adaptativos. A espinal medula contém ainda circuitaria complexa para comportamentos rítmicos, como caminhar. É precisamente porque este nível básico da hierarquia trata destas funções essenciais que os níveis superiores — como o córtex motor — ficam livres para processar o planeamento dos movimentos, a construção de sequências adaptativas e a coordenação do corpo como um todo, sem terem de se preocupar com os detalhes exatos de cada contração muscular.


